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Reis & Rainhas, Lendas & Factos

Reis & Rainhas, Lendas & Factos

14.01.21

14-01-21- Bairro de Triana


E.M.A.P.Coimbra

«Sevilha, a pátria de Santo Isidro e Leandro, a terra que, depois de Toledo, simbolizava mais paradigmaticamente a ocupação visigótica e muçulmana da Hispânia, estava na agenda de conquista de todos os reis cristãos peninsulares e alimentava o imaginário de todos eles, como um dos fins últimos da reconquista em marcha. Dar o primeiro passo numa conquista que se planeava desde pelo menos meados do século XII não seria nada estranho, mas que tivesse sido dado pelo rei português deve ter desagradado sobremaneira aos seus vizinhos cristãos peninsulares.» (note-se que Dom Afonso Henriques ainda Rei em 1178 não esteve nesta batalha; foi representado por Dom Sancho. As fontes árabes falam em Ibn al-Rink (o filho de Henrique)

«Naquela manhã de Julho de 1178, o infante embrenhou-se na frente de batalha de forma tão aguerrida que os seus nobres acorreram a ele em aflição, pensando que o perdiam. Tal era a multidão de mouros com os quais Sancho I e a ala que liderava se debatiam, tal o calor da luta que se travava.» (…) «… o infante agia como se tudo dependesse do seu desempenho, como se tivesse de provar toda a sua valentia naquele momento, face aos homens que apenas começava a liderar, face aos mouros que defrontava e face ao pai, Afonso Henriques, que aguardava, em Coimbra, novas da sua façanha.»

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O plano está traçado:

«As habituais provocações são de pouca duração. Os cristãos atacam primeiro. A vanguarda composta da cavalaria pesada embate violentamente no centro das tropas sevilhanas e mata centenas de infiéis. Mas os mouros, que os aguardam com as lanças em riste, também provocam muitas baixas. A cavalaria faz nova razia antes de desmontar. Entretanto, os peões protegidos de lorigas e escudos, avançam para a briga. O príncipe Sancho já está neste grupo e atira-se ao inimigo de forma suicida. Assustados do incauto do jovem, os nobres protegem-no como podem. Mas Sancho está imparável; debate-se com dois e três mouros ao mesmo tempo e mata-os com violentos golpes de espada, como se a cruz da morte ganhasse vida própria, atravessa os corpos desprotegidos dos crentes de Maomé. O que ninguém sabe é que Sancho está movido no terror da derrota e do fracasso. Esta batalha tem de ser ganha, depende do sucesso ou nunca será visto como rei. — Ouve-se o sinal de tambor e a retaguarda entra na batalha. E estes, fazem bem o papel que lhes está atribuído. Criam enorme confusão e mortandade. — Quem observar de um ponto alto, vê um amontoado de homens e bestas num emaranhado de espadas e lanças, de corpos despedaçados por todo o lado e muito barulho. — É a vez do assalto ao porta-estandarte do califa. O Vagabundo esgueira-se na confusão por entre a hoste inimiga protegido por seis companheiros de cada lado. Estranhamente, os mouros têm a mesma ideia e tentam chegar ao porta-estandarte Luso. Inicia-se a corrida pela vida ou morte! Em pouco tempo, dos protectores do valente guerreiro já só resistem quatro, três na direita um à esquerda e já muito maltratado. Os arqueiros africanos tem tido boa pontaria e cravaram-lhe duas setas. Mas a corrida não pode parar. A certa altura já só resta Vagabundo. Vai-se esquivando de um e outro golpe. A poucos metros do objectivo lança-se para cima dos cadáveres e rasteja por entre o pântano vermelho de textura esponjosa e peganhenta que se prende na roupa ao cabelo ao rosto... dissimula-se por entre mortos e feridos, alguns com horríveis amputações — Vou ficar com pesadelos — pensa o valente guerreiro. Percorre vários metros até avistar o alvo. Está irreconhecível, esgotado, com náuseas e quase a desmaiar, mas num derradeiro esforço ergue-se do inferno mesmo na cara do porta-estandarte almóada e com um lancinante grito de guerra mata-o. — Se não fosse por espada o pobre mouro morreria de susto. — A bandeira verde e branca caí com o seu vexilário, mas ninguém se apercebe. É então que Vagabundo, falando em Árabe e apontando para o local onde devia estar o pendão: — Tuufiy al Khalifa! O Califa morreu! O estandarte caiu! — A confusão é total. Os comandos muçulmanos percebem a trama e tentam suster a deserção, mas não conseguem. Os mouros fogem na direcção da ponte do Guadalquivir onde os portugueses os esperam.

      O plano foi um sucesso. Vagabundo acaba de viver a maior acção militar dos portugueses a terminar o século XII. Com o confronto de Triana ganho e o inimigo isolado nas muralhas de Sevilha, Dom Sancho libera as tropas para o saque e destruição dos arrabaldes. Até as Galés fundeadas em frente da cidade são pilhadas e incendiadas. Tudo ao redor de Sevilha arde. De noite o espectáculo tem tanto de belo como aterrador.

      Ao quinto dia levantam o cerco. É hora de regressar ao reino.»

 

Fontes: Emap Coimbra em A Cruz de Sancho (ficção histórica) e Maria João Violante Branco em D. Sancho I, Reis de Portugal